sábado, março 11, 2006

O verdadeiro segredo de Brokeback Mountain (por Reinaldo Azevedo para Primeira Leitura)


Um espetáculo de hipocrisia, com todos os rigores do preconceito às avessas, que é a essência do (não) pensamento politicamente correto, armou-se em torno do filme O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee. Manifestações e críticas as mais diversas têm quase sempre a mesma intenção: negar que seja um filme gay. Na imprensa brasileira e estrangeira, o que mais se lê é que se trata de um “filme de amor”, “convencional”, “sensível” etc. Até parece que o enredo, com personagens heterossexuais, daria a mesma audiência, geraria a mesma curiosidade ou assumiria a aura, vá lá, “de resistência” — todas essas características, enfim, ora associadas à obra. Se um deles fosse uma mocinha, não daria um curta-metragem. Melhor seria filmar a suruba das ovelhas (se é que ovelha faz suruba).

Foi preciso que seu diretor, que recebeu o Oscar, deixasse claro, em seu breve discurso, o óbvio: trata-se de um filme gay. É uma revelação feita depois de a fita ter seduzido platéias mundo afora (Lee não é besta). Qual o problema? Nenhum. Mas, pelo visto, o homossexualismo ainda precisa ser tratado como “o amor que não ousa dizer seu nome” para preservar sua aura de quase mistério; para que os homossexuais, na contramão de sua militância explícita, que pede visibilidade, possam se ocultar numa casca de especialidade e diferença que os tornariam superiores à massa heterossexual. Mutadis mutandis, o mesmo se dá com a ideologia: o segredo da eficiência está no ocultamento.

A militância, no caso da estética, seria tão mais efetiva, eficaz, quanto mais se escondesse. Tanto quanto o discurso político dos gays é convidado a sair do armário, o da arte gay teria de entrar. A dimensão política do proselitismo ganha a rua nas paradas e fala à razão, apelando à igualdade de direitos, à cidadania, à Constituição. Já a dimensão artística, bem, esta tem de se acrisolar, limpando-se das impurezas da militância para seduzir: quer falar ao coração.

Negar que Brokeback Mountain é uma elegia — no sentido literal da palavra — cinematográfica ao amor gay me parece uma soma de preconceito e ambição a um só tempo. O preconceito: caso se admita que se trata de um filme gay, estaria diminuído o alcance dos dilemas existenciais que ele propõe. Por quê? Indivíduos gays podem e são, quero crer, tão complexos ou tão rasos, tão idiotas ou tão profundos quanto qualquer heterossexual. A ambição: ao se tentar retirar o decalque gay do filme, insinua-se que o conflito vivido pelos dois pastores — não são caubóis — poderia ser experimentado por quaisquer homens. Um belo dia, você vai até uma montanha com o seu amigo, perde o sono, tem uma ereção e faz sexo com ele. Será assim? Por prudência, se ele o convidar para beber ou jantar, melhor tomar cuidado para não ser bebido ou jantado: vai que você não tenha savoir vivre para encarar o dia seguinte... Convenhamos: trata-se de uma grossa bobagem.

Assim, percebam, a estratégia de ocultar o real caráter do filme (não renegado pelo diretor, reitero) oscila entre dois extremos: nega-se que seja uma obra gay para que aquele amor possa ser universalizado como um drama humano; tornado um drama humano, é como se cada um de nós fosse convidado a perscrutar os limites da própria sexualidade: afinal, aquilo poderia ou não acontecer com a gente? A resposta, obviamente, é não. “Não” desde que o indivíduo seja heterossexual. É simples assim. A tal indústria cultural, também ela, entra alegremente nessa dualidade. Caso seja obrigada a encarar o lado militante da fita, as coisas se complicam comercialmente. Vendida a obra como um Romeu e Julieta, eventualmente Romeu e Romeu, tudo fica mais tranqüilo. A síntese: eles se amam, mas o mundo conspira contra a beleza.

Eu não conhecia o conto Brokeback Mountain, de Annie Proulx, em que se baseia o filme. Como literatura, é infinitamente inferior à obra de Lee como cinema. Mas há um dado interessante. Seus pastores nada têm dos bonitões escolhidos pelo diretor para representar o misto de idílio amoroso e desaire. Ao contrário até: entende-se que são tipinhos bem ordinários, corriqueiros, feiosos.

É claro que dois machões se agarrando na montanha falam mais aos corações e à curiosidade do que, por exemplo, os travestis e amalucados de Almodóvar ou, como é o caso do conto, um dentuço e um narigudo que decidem trocar fluidos corporais. As personagens do cineasta espanhol têm uma sexualidade marcada, carregam traços óbvios de desvio de comportamento em relação à norma socialmente aceita, desafiam o padrão com seus exageros e rococós sentimentais. E, curiosamente, não se percebem em sua obra traços de misoginia — muito ao contrário. Não é um mundo que exclui as mulheres ou que as veja como empecilho à felicidade dos homens.

Ang Lee, em seu filme assumidamente gay (na hora do Oscar...), evita os trejeitos — e nisso está de acordo com a obra original —, mas desloca para a montanha duas figuras olímpicas. É como se dissesse: “São homens demais para ser gays, são belos demais para ser gays. E, no entanto, são gays”. E não há como ignorar: as mulheres são apêndices numa relação que, com efeito, faz jus ao conceito de “amor viril”. Lee trata o homossexualismo como assunto de macho. A mulher tem de sair da sala e ir passar o café ou fazer tricô. Cadê as feministas, que não gritam? Mulheres se acabam de chorar no cinema. Estranho. Seu eu fosse mulher, chutaria o balde.

O verdadeiro segredo de Brokeback Mountain, o filme, está em fazer uma elegia homossexual que não ousa dizer seu nome, como se a transa dos dois pastores fosse fruto de uma conspiração da natureza que os cerca, que a todos inclui, também os espectadores (e nada pode ser mais militantemente “gay” do que isso) e em demonstrar o destino, digamos, nada invejável dos dois rapazes. E, é bem possível, talvez isso seja do agrado de Hollywood. Se eles tivessem descido da montanha, montado uma ONG e saído EUA afora defendendo que dois pastores têm mais o que fazer do que cuidar de ovelhas, talvez a obra não fosse assim tão aplaudida. Talvez nem merecesse um filme. À platéia heterossexual que mal segura as lágrimas talvez conforte o fato de que, com efeito, aquela coisa toda não termina bem.

Ang Lee abre espaço, vocês verão ou viram, para o proselitismo militante. E se os dois tivessem assumido o seu amor? E se tivessem tido a coragem de ficar juntos? E se tivessem enfrentado as convenções? E se mandassem as chatas das mulheres plantar batatas? Bem, caros, é como perguntar: e se os Montecchio e os Capuleto tivessem se entendido a tempo? Amor gay que dá certo acaba desfilando na parada, entendem? E se banaliza, como um amor heterossexual qualquer. O casal acaba no supermercado quebrando o pau por causa da marca do macarrão, como já vi uma vez. Cadê a poesia quando seus filhos começam a brigar no gôndola por causa do sabor da biscoito recheado? Afinal, a vida amorosa de 99,9% das pessoas não segura uma página ou uma seqüência de 10 minutos, gay ou não. É o desastre que alça o atraca-atraca dos machões à condição de poesia superior.

Irrelevâncias e relevâncias
O filme, em si, é irrelevante. Não dou a menor importância para o que as pessoas fazem entre quatro paredes. Acho a militância homossexual chata e burra, como qualquer outra. As questões de gosto, tornadas causas, logo ambicionam ou à condição de uma nova moralidade ou de uma ditadura de comportamento. Tenho amigos homossexuais e heterossexuais, masculinos e femininos. Como não faço sexo com eles, não me interessa como se comportam na cama. Faço e ouço piadas sobre o tema, o que é comum. Mas não abro espaço para que me contem aventuras. Não quero saber. As pessoas as mais inteligentes, interessantes, atraentes ficam idiotas falando de suas intimidades. Assim, o filme me interessa como um fenômeno de recepção.

O que quero dizer com isso? Brokeback Mountain é tão “não-gay” quanto Diários de Motocicleta, de Walter Salles, por exemplo, é um filme “não-político”. Vocês se lembram, né? Aquele que narra a viagem do Che Guevara pré-revolução cubana pela América Latina. Vistos ambos no detalhe, há até uma similaridade de linguagem. A paisagem física e humana entre encantadora e inóspita ia compondo a têmpera do revolucionário, assim como a vasta solidão da montanha aproxima os pastores. No filme de Salles, Che era um sem-ideologia (o que é mentira histórica), que vai desenvolvendo seu senso de justiça forçado pela conspiração dos fatos. No filme de Lee (e também no conto), os dois moços sobem heterossexuais e descem sabidos de todos os segredos. Ora, ao subir, cada um deles já era o que era, ainda que não tivessem provado da fruta do pecado.

Eis, pois, o fenômeno que interessa debater. Nos dias que correm, os temas que exploram as fronteiras do certo e do errado, que remetem a escolhas perigosas, políticas ou sentimentais, morais ou éticas, acabam se perdendo numa superfície gelatinosa que, rigorosamente, não ousa dizer seu nome. Na revista Primeira Leitura deste março, Michel Laub escreve sobre os filmes Munique, de Steven Spielberg, e Paradise Now, de Hany Abu-Assad. Também nos dois casos, faz-se um esforço para diluir escolhas no que eu ousaria chamar de poço de clichês dialéticos, onde tudo é nada, nada é tudo, o certo está sempre no relativo, e o telespectador é permanentemente convidado a não ter uma opinião, a flertar com todas as possibilidades.

Brokeback Mountain é um filme gay que tenta não parecer gay. Mas os diretores têm o direito de fazer filmes gays, certo? Paradise Now é um filme que defende o terrorismo, embora se esforce para apresentar uma “leitura humana” dos facínoras. E há quem ache que isso é também um direito. Bem, nesse ponto, eu seria obrigado a começar outro texto...

‘Brokeback’ é um filme sobre heróis machos (por Arnaldo Jabor para O GLOBO)


Eu não queria ver o filme “Segredo de Brokeback Mountain”. Não queria. Ver filme de viados , eu? (Escrevo viado porque, como disse Millôr, quem escreve “veado” é viado ). Muito bem; eu resistia à ideia, mais ou menos como o Larry David (o roteirista de “Seinfeld”) disse, num artigo engraçadíssimo, que tinha medo de virar gay se ficasse emocionado.

O viado sempre encarnou a ambigüidade de nossos sentimentos. Claro que, hoje, os civilizados todos dizem que “tudo bem, que são contra a homofobia” e todo o bullshit costumeiro. Eu mesmo já fiz filmes em que viados são protagonistas, em que o ator principal escolhe o homosexualismo no final (“Toda nudez será castigada”), já filmei travesti em “Eu te amo” e em “Eu sei que vou te amar”, além da biba louca do “O casamento”, em que o grande ator André Valli dá um show inesquecível. Em todos os meus filmes há uma boneca ativa e digna. E, no entanto, eu não queria ver o tal filme do Ang Lee, apelidado pelos machistas finos de “Chapada dos Viadeiros”.

Minhas razões eram mais discretas, intelectuais: “Ah... porque o Ang Lee é um cineasta mediano, ah... porque será mais um filme politicamente correto, onde o amor de dois caubóis é justificado romanticamente... Vou fazer o que no cinema? Ver mais um panfletinho que ensina que os gays devem ser compreendidos em seu ”desvio“? Não. Não vou”, pensei.

Aliás, eu sou do tempo em que os viados apanhavam na cara em plena rua. Havia pouquíssimos gays declarados no Brasil. No Rio, havia o Murilinho... cantor de fox em boates, havia o Clovis Bornay e poucos outros... O viado passava na rua sob os rosnados dos boçais prontos para lhes tirar sangue. E, no anonimato, enxameavam os pobres “pederastas”, de terno e gravata, pais de família se esgueirando nas esquinas, nas noites escuras, em busca de satisfação.

Mais tarde, com o tempo, surgiram as “bichas loucas”, que se assumiam com um toque de autoflagelação, de autoderrisão, caricaturas da mãe odiada e amada, que berravam e desfilavam nos carnavais num freje humorístico, que até hoje alimenta nossos shows na TV. A “bicha” virou uma personagem clássica do humor, como os palhaços e os bacalhaus de circo. E tudo bem... são engraçados mesmo.

Depois, com os direitos civis dos anos 60, surgiu a gay power , com homossexuais fortes e de bigode, malhados, cheios de orgulho. A viadagem virou um poder político importante, claro, mas até meio sério demais, aspirando a uma “normalidade” que contrariava sua “missão” trangressiva que tanto nos acalmava. Como disse Paulo Francis um dia, sacaneando-os: “Se esses caras querem todos os direitos e deveres dos caretas como nós, qual é então a vantagem de ser viado ?”

Em suma, por mais que “aceitemos” os gays, eles sempre foram uma fonte de angústia, pois atrapalham nosso sossego, nossa identidade “clara”. O gay é duplo, é dois, o viado tem algo de centauro, de ameaçador para a unicidade do desejo. A bicha louca ou o travesti, a biba doida ou o perobo , o boy , o puto, a santa, a tia, a paca, todos eles nos tranqüilizavam com suas caricaturas auto-excludentes. Já o gay sério inquieta. O gay banqueiro, o gay de terno, o gay forte, o gay caubói são muito próximos de nos, a diferença fica mínima.

Por isso, eu não queria ver o tal filme dos caubóis. Como? Caubói de mãos dadas, dando beijos românticos, com tristes rostos diante do impossível? Não. Eu, não. Mas, aí, por falta de programa, “distraidamente”... (aí, hein, santa?...) fui ver o filme. E meu susto foi bem outro. O filme não me pedia aprovação alguma para o homossexualismo, o filme não demandava minha solidariedade. Não. Trata-se de um filme sobre o império profundo do desejo e não uma narração simpática de um amor “desviante”. O filmes se impõe assustadoramente. Os dois caubóis jovens e fortes se amam com um tesão incontido e são tomados por uma paixão que poucas vezes vi num filme, hetero ou não. Foi preciso um chinês culto para fazer isso. Americano não agüentava. Nem europeu, que ia ficar filosofando. “Brokeback” é imperioso, realista, sem frescuras. Eu fiquei chocado dentro do cinema, quando os dois começam a transar subitamente, se beijando na boca com a fome ancestral vinda do fundo do corpo. O filme não demandava a minha compreensão. Eu é que tinha de pedir compreensão aos autores do filme, eu é que tive de me adaptar à enorme coragem da história, do Ang Lee. Eu é que precisava de apoio dentro do cinema, flagrado, ali, desamparado no meu machismo “tolerante”. Eu é que era o careta, eu é que era o viado no cinema, e eles, os machos corajosos, se desejando não como pederastas passivos ou ativos, mas como dois homens sólidos, belos e corajosos, entre os quais um desejo milenar explodiu. Não há no filme nada de gay, no sentido alegre, ou paródico ou humorístico do termo. Ninguém está ali para curtir uma boa perversão. Não. Trata-se de um filme de violento e poderoso amor. É dos mais emocionantes relatos de uma profunda entrega entre dois seres, homos ou heteros. Acaba em tragédia, claro, mas não são “vítimas da sociedade”. Não. Viveram acima de nós todos porque viveram um amor corajosíssimo e profundo. Há qualquer coisa de épico na história, muito mais que romântica. Há um heroísmo épico, grego, como entre Aquiles e Pátroclo na “Ilíada”, algo desse nível. O filme não é importante pela forma, linguagem ou coisas assim. Não. Ele é muito bom por ser uma reflexão sobre a fome que nos move para os outros, sobre a pulsação pura de uma animalidade dominante, que há muito tempo não vemos no cinema e na literatura, nesses tempos de sexo de mercado e de amorezinhos narcisistas.

Merece os Oscars que ganhou. Este filme amplia a visão sobre nossa sexualidade.

sexta-feira, março 03, 2006

Muito Cuidado, Vem Ai A Síndrome Brokeback (por Chico Marques para Trupe da Terra)


Há muitos anos uma cerimônia de entrega dos Oscars não despertava tamanho assanhamento da parte da Imprensa especializada e não-especializada em cinema do mundo inteiro.

O motivo, óbvio, é "Brokeback Mountain", de Ang Lee, o primeiro filme "mainstream" da história de Hollywood a mostrar abertamente uma relação amorosa entre dois cowboys.

Eu disse filme "mainstream". Nada a ver com "Lonesome Cowboys", a produção underground sobre cowboys viadinhos que Andy Warhol rodou no final dos anos 60. Nada a ver também com o festival de insinuações sobre viadagem que existem nos roteiros dos melhores westerns de Howard Hawks e Nicholas Ray.

Não, em "Brokeback Mountain" temos finalmente nas telas a "coisa verdadeira", com direito a imagens dos personagens dos atores Heath Ledger e Jake Gyllenhal em nada sutis "conjunções carnais", com direito a explosões de quase violência sexual, gritos de prazer e dor e, claro, muito bafo quente na nuca de Jake.

Gracinhas à parte, "Brokeback Mountain" é um filme pioneiro, e são inegáveis as suas virtudes, com destaque para o roteiro primoroso de Larry McMurtry. Mas convenhamos, o assanhamento da Imprensa está demais, tem gente que anda exagerando. Um sujeito da Revista PREMIERE argumentou que Heath Ledger -- o cowboy mais macho do filme -- merece mais o prêmio de Melhor Ator do que Philip Seymour Hoffman, pois considera seu personagem muito mais emblemático para a causa gay do que a espetacular personificação que Hoffman fez do genial escritor americano Truman Capote -- curiosamente, um homossexual assumido desde sempre, ao contrário dos cowboys de armário de Ang Lee.

Eu não tenho nada contra homossexuais, mas confesso que fico bastante irritado quando eles tentam impor certos pontos de vista que só dizem respeito a eles como sendo "senso comum". Caiu nas minhas mãos um dia desses um texto publicado num jornal local em que um articulista gay, com linguajar acadêmico, defendia o filme com frases assombrosas como 'o amor é o oeste da alma" e "o establishment careta assiste atenta e respeitosamente o amor entre dois homens", entre outras pérolas.

Daí fiquei pensando no quão ridículo vai ser para a Academia de Artes e Ciências de Hollywood se decidir premiar "Brokeback Mountain" no próximo domingo por "razões políticas", e não por seus méritios artísticos. O motivo das aspas nas "razões políticas" é justamente a força do Lobby Gay da Indústria Cinematográfica, que não só fica mais poderoso, como consegue mais e mais espaço na Imprensa a cada ano que passa.

Se isso acontecer, não se espantem se nos próximos anos as produções de Hollywood acabarem assoladas por uma espécie de Síndrome Brokeback, que vai proporcionar às bichas da Indústria Cinematográfica um tipo de fiscalização semelhante ao que a Sociedade Protetora dos Animais faz com os bichinhos utilizados em filmes.

Acham que eu estou delirando?

Pois anotem aí: se a Indústria se render ao Lobby Gay que empurra (opa!) os responsáveis por "Brokeback Mountain" para o palco da Festa dos Oscars desse ano, nunca mais vamos poder ver bichas divertidas nos filmes de Hollywood. De agora em diante, só homossexuais com muita dignidade e com exemplos de vida edificantes. "Gaiola das Loucas", nunca mais. Eddie Murphy imitando policiais gays sadomasoquistas com língua presa da Polícia de San Francisco, nunca mais. Norm McDonald cantando "Mamas Don't Let Your Babies Grow Up To Be Gay Cowboys" no show de David Letterman, nunca mais.

E como se não bastasse isso tudo que cerca "Brokeback Mountain", vamos ter ainda na próxima cerimônia dos Oscars um show de hipocrisia na entrega a Robert Altman do Prêmio por Contribuição à Arte Cinematográfica. Justo ele, Altman, o cowboy fora-da-lei de Hollywood, que sempre manteve sua independência diante das regras dos Grandes Estúdios, e que achou uma maneira de conseguir sobreviver artisticamente à margem da própria Indústria. Vai ser engraçado, ainda mais se rolar alguma saia justa com os Membros da Academia, o que é bem provável que aconteça.

E talvez tenhamos ainda outro notório desafeto de Hollywood faturando o Oscar de Melhor Roteiro Original. Nada menos que Woody Allen, com seu soberbo "Match Point". Se isso acontecer, e mais uma vez não aparecer por lá para pegar a estutueta, ele jamais será perdoado. A não ser que, depois de uma vida inteira dedicada às mulheres, ele decida declarar-se gay. Aí tudo bem, perdoam ele na hora.Cuidado, Hollywood tem andado assim de uns tempos para cá. É a Síndrome Brokeback em ação. Preparem-se para o pior, pois não vai ser nada fácil daqui por diante. Conseguem imaginar como seria a Inquisição Espanhola com plumas e lantejoulas? Ou o McCarthismo com trilha sonora do ABBA? Pois vão descobrir...

A não ser que a Academia sofra uma recaída de seus ideais liberais e prefira premiar no próximo domingo o belo e desconcertante "Boa Noite, e Boa Sorte", de George Clooney, certamente o filme mais americano de todos os que estão no páreo do Oscar, até agora visto por poucos (por ter sido rodado em preto e branco), e que é um tapa na cara de qualquer um que viva de expedientes mentirosos e autoritários. E isso vale tanto para a hipocrisia de George Bush, ao fingir desconhecimento de causa em relação ao estrago que o Furacão Katrina seria capaz de fazer (e fez) no Sul dos Estados Unidos no início do ano passado, quanto para a cretinice da comunidade gay americana ao rejeitar "Capote", por achar que o caráter duvidoso de Truman Capote serve mal à causa gay.

Se "Boa Noite, e Boa Sorte" ganhar, eu juro que saio pelado pela rua na madrugada de segunda, fantasiado de Oscar, com o corpo coberto de gel dourado, abraçado a uma bandeira americana, e cantando "There's No Business Like Show Business".

quinta-feira, março 02, 2006

A brilhante amoralidade de Woody Allen (por Ricardo Calil para NoMinimo)


Não são necessários mais do que alguns minutos para perceber que “Match Point – Ponto Final”, que estréia hoje no Brasil, é um filme bastante diferente dos últimos realizados pelo cineasta norte-americano. A tipologia dos créditos de abertura continua a mesma, mas a trilha de fundo não é mais algum standard de jazz, e sim a ária “Una Furtiva Lacrima”, de Donizetti.

Dessa vez, a produção não ficou por conta da Dreamworks, mas da BBC – o que ajuda a explicar outras novidades. Entre os membros da equipe, estranha-se a ausência de colaboradores habituais de Allen, como o designer de produção Santo Loquasto e o diretor de fotografia chinês Zaho Fei. Londres substituiu Nova York como cenário principal do filme, e abastados ingleses viraram protagonistas no lugar dos intelectuais americanos.

Allen contentou-se em ficar atrás das câmeras, o que não chega a ser um fato estranho em sua carreira. A boa nova é que não há nenhum jovem ator à vista imitando os trejeitos do velho comediante. Por fim, os diálogos de humor e as cenas de pastelão deram lugar a uma fábula moral e a um visual mais refinado.

A mudança de ares só fez bem a Allen. Dizer que “Match Point” é o melhor filme do cineasta em muitos anos não significa grande coisa, visto que ele vinha de uma longa série de comédias pouco memoráveis. Será melhor afirmar que se trata de uma das melhores obras de sua carreira e uma das produções mais provocadoras do cinema recente.
Apesar das várias novidades, a história de “Match Point” se parece muito com “Crimes e Pecados” (1989), até hoje o melhor filme dramático do diretor, em que Martin Landau interpreta um homem que precisa escolher entre a esposa e a amante. Na trama, o ex-jogador profissional de tênis Chris Walton (Jonathan Rhys Meyers) começa a dar aulas para o jovem milionário Tom Hewitt (Mathew Goode). Chloe (Emily Mortimer), irmã de Tom, logo se apaixona por Chris, mas este se interessa pela atriz americana Nola (Scarlett Johansson), noiva de Tom. Em um dado momento, ele terá de decidir entre o conforto material proporcionado pela primeira e o furor passional oferecido pela segunda. A saída encontrada pelo protagonista para resolver o dilema é uma medida extrema.

Da mesma forma que “Crimes e Contravenções”, “Match Point” sofre forte influência de Fiódor Dostoiévski, que Chris aparece lendo em uma determinada cena. Como o autor russo, o cineasta americano quer discutir as implicâncias morais de ações condenáveis. Mas pode-se dizer que os dois filmes representam uma negação de Dostoiévski. Na obra-prima “Crime e Castigo” (1866), o escritor defende a idéia de que todo crime acaba sendo pago de uma forma ou de outra. Allen contrapõe que um assassinato nem sempre termina em condenação ou em culpa.

Desde o monólogo de abertura do filme, o cineasta argumenta que há um componente fundamental, embora subestimado, a determinar o destino: a sorte ou o acaso. Nessa primeira cena, vê-se uma troca de bola sobre uma rede de tênis, até que ela bate na fita, e a imagem é congelada. Se a sorte está a nosso favor, nos lembra o cineasta, a bola cai do outro lado da quadra. No final do filme, em um achado brilhante, essa cena irá se repetir com outro objeto – e o lugar onde ele cai será determinante para o desfecho da trama.

Para Allen, o crime às vezes compensa. Há um grau de amoralidade nessa idéia que torna seu filme muito mais ousado do que o dos caubóis gays ou o dos agentes secretos israelenses. Em outras palavras, “Match Point” foi o grande injustiçado do Oscar neste ano, ao lado de “Marcas da Violência”, de David Cronenberg.

Outro absurdo foi a não-indicação de Scarlett Johansson ao prêmio de melhor atriz. Mais do que uma jovem mulher deslumbrante, ela é uma das raras estrelas verdadeiras surgidas no cinema americano em muito tempo. Allen, que não é bobo nem nada, vai usá-la como protagonista em dois filmes seguidos – privilégio que só costuma oferecer às atrizes com quem está casado. Com “Match Point”, o veterano cineasta prova que seu talento continua em forma e que mantém seu olhar aguçado para garotinhas.

A autobiografia de Truman Capote (por Ricardo Calil para NoMinimo)


Em um excelente perfil de Truman Capote (1924-1984), o mestre Ivan Lessa lembra um significativo “causo” sobre o escritor norte-americano. Capote, Gore Vidal e Norman Mailer falavam sobre seus livros em um sarau literário, até que o primeiro interrompeu os outros dois: “Tudo isso que vocês estão dizendo pode ser muito interessante, mas a verdade é que eu escrevi uma obra-prima, e vocês não”.

Capote era ególatra, arrogante, mitômano e afetado. Mas, naquele momento, disse uma verdade difícil de ser questionada. No grupo de gigantes da literatura, o baixinho Truman era o único que podia se gabar de ter revolucionado as letras americanas, de haver criado um novo gênero. A obra-prima a que ele se referia chama-se “A Sangue Frio” (1966), marco do jornalismo literário e ainda o mais genial “romance sem ficção” da história.

A gênese de “A Sangue Frio” é o tema central de “Capote”, belíssimo filme de Bennett Miller indicado a cinco Oscar, que estréia hoje no Brasil. Nascido em Nova Orleans, Capote (Philip Seymour Hoffman, favorito ao prêmio de melhor ator) já era uma celebridade literária na Nova York de 1959 quando leu no jornal “The New York Times” uma pequena nota sobre o misterioso assassinato de quatro membros de uma família de fazendeiros na pequena cidade de Holcomb, no estado de Kansas.

Apesar de o assunto parecer o mais distante possível de seu cotidiano hedonista na época (ou, talvez, por isso mesmo), ele acreditou que a história poderia render uma reportagem ou um livro e partiu para a cidade ao lado da também escritora Harper Lee (Catherine Keener), autora de “To Kill a Mockingbird”. Homossexual de voz fina e cheio de trejeitos, ele era uma figura extravagante para uma pequena comunidade do sul dos Estados Unidos, mas conseguiu conquistar a confiança dos moradores com sua habilidade para criar empatia a partir do nada. Mas ele só entendeu por que tinha ido parar em Holcomb quando a polícia prendeu os dois autores confessos do crime.
O filme centra-se na estranha amizade que se estabeleceu entre o escritor e Perry Smith (Clifton Collins Jr.), o mais introvertido e inteligente dos assassinos. Capote afeiçoou-se de tal forma a ele que pagou um advogado para revogar a condenação à pena de morte (e também conseguir mais tempo para ouvir as confissões de Perry). Mas, com o passar dos anos, passou a desejar sua execução, para poder concluir o livro. Os dois estabeleceram uma associação que pode ser chamada de simbiótica, pois ambos os lados se beneficiaram dela: o escritor precisava do criminoso para conseguir sua história, o criminoso precisava do escritor para permanecer vivo.

A relação entre Capote e Perry foi uma das mais complexas e ambíguas já estabelecidas entre um artista e seu modelo na história. Ele comportava emoções paroxísticas de cumplicidade autência, manipulação mental e desejo físico (segundo as más línguas, eles se tornaram amantes). “Capote” tem o grande mérito de captar todas as nuances dessa insólita associação sem se fixar em nenhuma delas, sem tentar definir o indefinível. Assim, tornou-se um dos melhores filmes já feitos sobre os jogos de atração e repulsa entre um autor e seu tema. Para tanto, contou com a ajuda fundamental de Hoffman, que encontra a alma do personagem por baixo de várias camadas de tiques.

A chave para elucidar a relação entre Capote e Perry está em uma frase dita pelo escritor a sua colega Harper Lee: “É como se nós tivéssemos crescido na mesma casa, só que eu saí pela porta da frente, e ele pela de trás”. O filme consegue mostrar que a distância que separava os mundos do escritor refinado e do assassino brutal era apenas aparente. Havia muito mais elementos a unir os dois do que a separá-los: ambos cresceram em lares desestruturados de regiões pobres dos EUA, foram ridicularizados na adolescência por sua baixa estatura, desenvolveram uma ambígua forma de sexualidade, vingaram-se do mundo pela arte ou pela violência. Talvez o grande achado do filme seja revelar que “A Sangue Frio” não foi apenas uma revolução na literatura, mas também a autobiografia dissimulada de Truman Capote.